terça-feira, 22 de maio de 2012

Horário.


Fui a sua pintura, jóia delicada
Relógio desses que homem
Carrega no bolso da costura
Com a hora atrasada.


Seu tempo já passou. E você não rouba mais o meu.

domingo, 20 de maio de 2012

Um eu.

Foi falar do que coça
E a coceira começou
Foi falar de quem não
Sabe que é
E eu, já não sei
Quem sou
É a vida
 Um dedo a
Repousar constante
Na ferida
Faz doer
E faz também não ver
Porque exposta
A grande falha
Se faz vista
A olhos vistos
Pelos outros.
Meu olhar não existe
Bravamente resiste
Noutros.


- Fixo no ponto da falha que aqui me salva. Por falar de quem não sabe que é, traz a dúvida do que/de quem sou. A dúvida de "quem se é " difere fundamentalmente da dúvida "de ser". Graças a Deus alguém aqui sabe que sou. Era mesmo esse o maior medo.

Do que é (e)terno.

Estava eu, de repente
Na "chacrinha"
Entre as cercas de arame farpado
E o galinheiro que nunca
Teve galinha
Saudade senti da estrada de chão
Das muretas de tijolinho a sustentar
O pequeno e vazado portão
Pisei ardósias
E dentro do peixe
Redondo de pedras brancas
Vi hortências roxas e róseas
Desci hortinha abaixo
E até melancia tinha
escondida embaixo da rama:
Verde sozinho na terra sem grama!
Minha espada de papel
No dia do soldado
Os cantinhos mais longiquos
Da divisa Seu Alfredo
Tinha eu nunca mais
Voltado
Tão cedo
 Lembrei da casa, de cada parede
E de quando o caseiro
Levou em nome d´outro
A nossa linda rede.
E de croché também
A colcha
A recobrir a cama do quarto à direita
Dessas que cheiram "volta em mês"
Quando a gente deita
Armários de madeira sem puxador
A ranger na cozinha
E a calçada por onde a primarada
Vez ou outra, vinha
Foi quando mergulhei
No azul claro desbotado do quadrado
Dia feito minha piscininha
Pai, não deixa jogarem a água para fora!
É o que te pede a sua Andressinha.

No que dá pra ver.

Tanto falamos em vereda
Pensei nessa e
Na qual outra, suceda.
E nessa, visitei as passadas,
Perdidas.
Vez ou outra lá retorno
E temo, no regresso
Esquecer a saída, o caminho,
Quanto mais fica a vereda
Em pedaço de tempo apartado,
Sozinho.
Mas não é essa senda, pedaço de terra
Pra cravar em linha de toco o rastro
No chão
Vou tranquila e volto:
A vereda se inscreve no meu
Coração.




* Ainda sob o (e)feito de Guimarães Rosa. 

Na rua, na chuva, na fazenda.

Pensei o casal na areia da praia
Com a pele salgada das ondas
E quis fechar o cenário!

Se real demais para minhas sondas
Fechasse o tempo na praia
Que fosse!

Assim se fez!

Toda prosa, fazia eu agora
Chover gota gelada
Em pele quente

Carregava comigo cadeiras
E o pôr do sol
Latente

Ao chegar madrugada
 No quarto
Podia eu soprar o pólo norte

Cetim como água gelada
A desferir, sem faca
Um fundo corte

De fundo
Tudo isso
Mero suporte

Me perdi, de fato
Em meio a tais lençóis
Sem morte

O substrato era mesmo
Velho conhecido
Des-ferir:
O coração
Sem faca
Ferido.



Nino.

Dfícil ser mulher
Nos moldes que o tempo
Convoca e quer

O meu querer
Há vir sempre
 Primeiro
Amor antes
Eu mesma
Falseio

Que fazer então
 Desses marmanjos
Com mimos
E arranjos 
A falar abaixo
Da varanda?

Jogo água
Jogo pedra
Vai embora!
Se escafeda!
Eu é que não armei essa
Sanga!


Sei não onde está o meu tal
Feminino!

Certo é que não está para os cortejos
Como não estão voejos
Aos alevinos

Quem manda aqui
Não sei.
Eu, só obedeço.
Fecho a janela.
Não desço.


Bom é gostar de você e você gostar de mim. Necessariamente nessa ordem.

sábado, 19 de maio de 2012

Valor (Daquilo que VALe o amOR).

O poeta disse "fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho". Ouso discordar: acho que fundamental mesmo é a paixão e que liberdade é a melhor coisa do mundo. Ruim, só a solidão: da falta de paixão. Aí, com amor, sem, sozinho, junto...nada melhora!


Muito se diz na linguagem dos apaixonados que felicidade é "tornar-se um". Mas tornar-se um não seria o mais simples, quase automático? A nós, seres humanos para os quais cabe sempre um incompleto, um vazio, uma ausência de sentido... Existe algo mais tentador (e que traz tanta-dor!) do que (tentar) preencher a falta perene e suprema com alguém?

Mais desafiador, parece, é fazer-se dois. Num fazer verdadeiro "faz de conta" mesmo. Num fazer em que se é, sem ser. Mas que está longe de ser um fingir. E assim, na contramão, quando mais separados, mais sincero é estar junto. Mais escolha e possibilidade há. Liberdade!

Lado a lado. É escolha de protagonismo na vida abrir mão de ser personagem em uma "estória". Quantas "estórias" sem "histórias" de amor! Relato unilateral.. Bom é contar junto história de dois!

Ser dois só pode ser aliança de sintonia. Pode estar no dedo, no coração. Só no coração. Nunca só no dedo! E aliança não se faz sozinho! Nem laço. Seja o laço da sintonia o enlace, se assim quiser. Só não seja laço que amarra, que enlaça outro, como se enlaça cavalo indomado. Mas que seja também indomado e indomável! Que arrebate - em todos os sentidos da palavra.

Mas se aliança pressupõe dois, como é que se quer fazê-la de um? Eis aí o verdadeiro impossível. Para a linguística, "aliança de palavras" representa "argumento de dois termos contraditórios que, justapostos, podem ser interpretados como metáfora (p.ex.: diz o povo: "devagar também é pressa")". Ora, digo aqui, então: é separado que a gente se faz junto! Que mais ser além de justaposição, de metáfora?

E penso: Não seria a "aliança de palavras" (dessa vez aquela que se refere ao que nos resta  -palavra!), a única possível?
É pela palavra que a gente jura amor eterno, é pela palavra que se promete fidelidade.


A fidelidade! Aparece, só posso crer, para voltar a dizer que a paixão é fundamental. Quem é inteiramente fiel sem paixão? E não coloco a paixão como superior ao amor. Jamais paixão em detrimento do amor. Não falo de paixão banal. Falo da paixão apenas como "pai e chão" do amor.

Então não me venha dizer o poeta que o mal é ser sozinho, quando o mal é a solidão!
Solidão que não tem como pressuposto estar só.
Fundamental é mesmo o amor. Ok!Também! O que não aceito é completar tal enunciado afirmando que é impossível ser feliz sozinho, porque sozinho é que se nasce e sozinho é que se morre - o interlúdio é cor, é brilho, é desejo, é poesia: é, sim, paixão! Por que não?