O poeta disse "fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho". Ouso discordar: acho que fundamental mesmo é a paixão e que liberdade é a melhor coisa do mundo. Ruim, só a solidão: da falta de paixão. Aí, com amor, sem, sozinho, junto...nada melhora!
Muito se diz na linguagem dos apaixonados que felicidade é "tornar-se um". Mas tornar-se um não seria o mais simples, quase automático? A nós, seres humanos para os quais cabe sempre um incompleto, um vazio, uma ausência de sentido... Existe algo mais tentador (e que traz tanta-dor!) do que (tentar) preencher a falta perene e suprema com alguém?
Mais desafiador, parece, é fazer-se dois. Num fazer verdadeiro "faz de conta" mesmo. Num fazer em que se é, sem ser. Mas que está longe de ser um fingir. E assim, na contramão, quando mais separados, mais sincero é estar junto. Mais escolha e possibilidade há. Liberdade!
Lado a lado. É escolha de protagonismo na vida abrir mão de ser personagem em uma "estória". Quantas "estórias" sem "histórias" de amor! Relato unilateral.. Bom é contar junto história de dois!
Ser dois só pode ser aliança de sintonia. Pode estar no dedo, no coração. Só no coração. Nunca só no dedo! E aliança não se faz sozinho! Nem laço. Seja o laço da sintonia o enlace, se assim quiser. Só não seja laço que amarra, que enlaça outro, como se enlaça cavalo indomado. Mas que seja também indomado e indomável! Que arrebate - em todos os sentidos da palavra.
Mas se aliança pressupõe dois, como é que se quer fazê-la de um? Eis aí o verdadeiro impossível. Para a linguística, "aliança de palavras" representa "argumento de dois termos contraditórios que, justapostos,
podem ser interpretados como metáfora (p.ex.: diz o povo: "devagar
também é pressa")". Ora, digo aqui, então: é separado que a gente se faz junto! Que mais ser além de justaposição, de metáfora?
E penso: Não seria a "aliança de palavras" (dessa vez aquela que se refere ao que nos resta -palavra!), a única possível?
É pela palavra que a gente jura amor eterno, é pela palavra que se promete fidelidade.
A fidelidade! Aparece, só posso crer, para voltar a dizer que a paixão é fundamental. Quem é inteiramente fiel sem paixão? E não coloco a paixão como superior ao amor. Jamais paixão em detrimento do amor. Não falo de paixão banal. Falo da paixão apenas como "pai e chão" do amor.
Então não me venha dizer o poeta que o mal é ser sozinho, quando o mal é a solidão!
Solidão que não tem como pressuposto estar só.
Fundamental é mesmo o amor. Ok!Também! O que não aceito é completar tal enunciado afirmando que é impossível ser feliz sozinho, porque sozinho é que se nasce e sozinho é que se morre - o interlúdio é cor, é brilho, é desejo, é poesia: é, sim, paixão! Por que não?